BELVEDERE

Instalação site specific / Site-Specific Installation –  2013

Casa de Dona Yaya – CPC USP –  São Paulo, BR – 28’Apr to 30’Jun

BELVEDERE (English below; video above subtitled in English)

Uma pequena interferência cenográfica na estrutura arquitetônica reconfigura o lugar. Alteramos a altura do piso e transformamos o solário em belvedere. As paredes, que antes oprimiam, convertem-se em guarda-corpo. O que antes era uma área de confinamento e, provavelmente, sofrimento sutil e vergonha, transfigura-se em área de desfrute e deleite, de onde se admira a paisagem, o jardim, a rua, os transeuntes. Convidamos o visitante a experimentar um novo ângulo de apreciação da casa e do bairro: o panorama suscita novas percepções acerca da memória incrustada nas paredes, na relação da casa com a Bela Vista e do bairro com a cidade.

Do miradouro, observa-se e pode-se ser observado.

Ao mesmo tempo, ao construirmos a estrutura cenográfica do belvedere, outro ambiente é criado: o vão interno, um claustro ou caverna. Se o miradouro é espaço de contemplação, o claustro é o limite extremo. Ali, resquícios do que o solário um dia representou: restrição, prisão, cárcere, clausura. Nesse espaço, vestígios de sua história precedente, do sofrimento e tristeza que Dona Yayá teria ali sentido e do pesar por infligimos (socialmente) tais sofrimentos a muitas Yayás no passado e, infelizmente, ainda no presente.

E se cada um(a) de nós fosse o/a encarcerado/a?

Espaço de solidão. De dimensão exígua, o claustro permite apenas um visitante por vez. Adentra-se o escuro, sozinho/a, mas ouve-se os passos de outros/as no belvedere, assim como a enclausurada primeira terá ouvido o movimento dos/as outros/as pela casa, na rua, no jardim… Ali, uma pequena televisão reproduz uma animação gráfica em loooping.

Plano aberto: a Casa de Dona Yayá vista de frente. Pouco a pouco, o solário começa a ser colorido de vermelho-sangue. O vermelho escorre pelas paredes. Corta. Panorama, de cima: a casa branca e o solário, o apêndice, vermelho.

O solário como um aborto ou vômito da casa; um órgão expelido, uma excrescência.

Lentamente, o vermelho é engolido pelas paredes e a casa esconde o sofrimento em suas paredes, até regredirmos ao plano inicial, um plano aberto da Casa de Dona Yayá.

Ativação de espaço histórico

A Casa da Dona Yayá, como é́ conhecido o imóvel situado à Rua Major Diogo 353, no bairro Bela Vista em São Paulo, foi transferida para a USP como herança jacente em 1961, após o falecimento da proprietária, Sebastiana de Mello Freire, a Dona Yayá́. Única e rica herdeira de propriedades, ela foi interditada depois de considerada incapaz de gerir sua fortuna, por “sofrer das faculdades mentais”. Depois da primeira manifestação da doença e de passar mais de um ano internada, um conselho médico decidiu que ela deveria mudar- se para um lugar mais calmo e tranqüilo, uma chácara nos arrabaldes da cidade. Isto aconteceu nos meados da década de 1920. Aí viveu por 40 anos, sendo cuidada e vigiada por familiares e empregados. Várias reformas foram realizadas na casa, de acordo com os tratamentos médicos prescritos, garantindo, quando necessário, o isolamento da interdita.

Durante 40 anos, a casa foi um hospício privado para sua rica moradora, considerada alienada numa época de parcos conhecimentos psiquiátricos e extremamente preconceituosa em relação às mulheres independentes e ousadas, como Yayá. Em uma das últimas reformas, foram construídos o jardim de inverno e o solário destinado aos banhos de sol da reclusa Yayá. Vale assinalar que estruturas arquitetônicas como o solário aí construídos são encontradas em hospitais psiquiátricos, mas não se tem notícia da existência de outra estrutura semelhante erguida em casa particular no mundo.

Editais e Prêmios

ProAC de Apoio a Projetos de Artes Visuais no Estado de São Paulo – 2012.

BELVEDERE 

A small scenographic interference in the architectural structure reconfigures the place. We’ve changed the height of the floor and transformed the solarium into a belvedere. The walls, which before oppressed, became a bodyguard. What used to be an area of confinement and, probably, subtle suffering and shame, is transformed into an area of enjoyment and delight, from which one can admire the landscape, the garden, the street, the passers-by. We invite the visitor to experience this new angle : the panorama raises new insights about the memory embedded in those walls, about the relationship of the house with Bela Vista neighbourhood and the city. From the belvedere, one observes and can be observed. At the same time, when we construct scenographic structure of the belvedere, made of metal and wooden, another environment is created: the internal span, a cloister or cave. If the belvedere is a space for contemplation, the cloister is the extreme limit. There, remnants of what the solarium once represented: restraint, prison, jail, cloister. In this space, vestiges of its previous history, of the suffering and sadness that Dona Yayá shall have felt there and of the sorrow for inflicted (socially) such sufferings to many Yayás in the past and, unfortunately, still in the present. What if each of us was incarcerated?

Activating an Historical Site 

The House of Dona Yayá, as it is known the property located at Rua Major Diogo 353, in the neighborhood of Bela Vista in São Paulo, was transferred to São Paulo University (USP) as inheritance in 1961, after the death of the owner, Sebastiana de Mello Freire, also known as Dona Yayá. Single, only child, rich and heir of estates, she was restrained after being considered incapable of managing her fortune, by “suffering of the mental faculties”. In the mid-1920s, a medical council decided that she should move to a quiet place in the city’s suburbs. For 40 years, during a time of little psychiatric knowledge and extreme prejudice in relation to independent and daring women like Yayá, the house was a private hospice for its wealthy resident. The solarium, which was used for the sunbathing of the recluse Yayá, was built on one of the reforms made in the house to adapt it to the seclusion of the owner. It is worth pointing out that an architectural structures such as this solarium are usually found in psychiatric hospitals, but there is no knowledge of another similar structure erected in a private house in the world.

AWARDS AND INCENTIVES

ProAC – Award of Visual Arts by the Government of the State of São Paulo 2012

Criação e Coordenação Mariana Vaz Creation and Coordenation 

Colaboração  Mirella Marino e José Silveira in Colaboration with

Arquitetura e Cenografia José Silveira Architeture and Scenographie

Animação Rogério Nunes Video-animation

Fotos e Vídeo André Luiz de Luiz Photos and Video

 

 

 

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